Versão 2

Um dia a raposa com fome viu um cacho de uvas, pendurado na parreira. Tentou com todas as forças que tinha, de todas as maneiras, mas não a alcançava de maneira alguma. Então ela virou-se, empinou o nariz e disse: “também, estão verdes”. E foi-se embora.

Essa é uma história que se conta em alguns lugares para ensinar pessoas ingênuas sobre como se dá o valor das coisas por outras pessoas. Sobre desdenhar do que não podem comprar.

Esse pequeno exemplo serve para nos mostrar o poder que tem uma história: se bem contada, se bem apresentada no momento exato, é inclusive capaz de oferecer ao ouvinte um aprendizado, ou no mínimo um questionamento.

Nos faz pensar, e com evidências novas.

Eu sempre achei a narrativa a coisa mais poderosa que podemos usar e oferecer em qualquer situação. E estou agora oferecendo essa palestra para ajudar você a contar uma história curta. Não tão curta quanto essa, de Esopo, mas curta.

Curta-metragem.

Geralmente o curta-metragem é desenvolvido por pessoas que têm pouco recurso ou experiência, ou ambos. Isso significa que o planejamento pode sofrer.

Não é a intenção desse material oferecer um curso completo de cinema, mas sim uma noção geral para evitar que falte o essencial a uma diária de trabalho, especialmente para quem ainda está aprendendo.

O curta mais caro é o que não termina. Então, não pense duas vezes em fazer um cartaz, um roteiro, pesquisa de equipamento e recursos, elenco, toda a produção. Mesmo que saia, ao final, um curta bem ruim, o importante é desenvolver o curta. No próximo, você faz melhor. Não fazer, isso é fatal.

  1. Conheça profundamente o equipamento que vai usar. A câmera, saiba quanto de luz ela capta, qual a velocidade de trabalho, quanto de espaço em cartão ela precisa, quantos cartões tem, quanta bateria usa, precisa por minuto e tem disponível, quanto tempo leva pra carregar. Microfones, entenda alcance, peso, uso. Iluminação, mesmo que pretenda usar luz natural que é maravilhosa, entenda que ela muda ao longo do ano, e uma gravação em janeiro é diferente de uma em agosto. Procure até mesmo saber a previsão do tempo para os próximos dias.
  2. Evite dar trabalho para a pós-produção. Uma cena gravada tem que ser limpa, e funcionar. Continuidade de roupa, objetos, áudio, fala, luz, isso tudo tem que estar presente em cada tomada. Não é que a pós deixe de trabalhar, mas quanto menos contar com ela em um curta metragem, melhor.

Isso também significa tomar cuidado com todos os planos de filmagem. Se apareceu no fundo, borrado, ainda assim apareceu. Alguém vai notar. E isso é muito comum de acontecer, só pesquisar no YouTube a quantidade de canais que vivem de apontar falhas em grandes produções.

  1. Evite multidões e lugares públicos. Qualquer lugar que permita acesso a pessoas estranhas, mais ainda se permitir acesso a animais e carros que vocês não conheçam. Uma produção profissional já enfrenta dificuldades nesse tipo de gravação, contando com dezenas de pessoas para desviar o trânsito, manter curiosos de fora, imagine quem está começando.
  2. Organize suas diárias de filmagem de acordo com a dificuldade das cenas. Se a equipe possui zero experiência com equipamento e locação, comece das mais fáceis, que envolvem cenas minimalistas, menos elenco, maquiagem ou efeitos. Ainda assim, cuidado com as cenas de forte impacto emocional: se um personagem chora, morre, muda de sentimento, evite todos esses momentos trabalhosos no primeiro dia, porque não ajuda muito a atuação dar tudo de si se, por exemplo, o microfone não estiver calibrado. Ou a luz ruim. Até dá pra mascarar, dizendo que o defeito da cena foi intencional para marcar a ruptura, mas use este argumento em último caso.

Produto audiovisual: o que é, exatamente

Existe um filme que, na cabeça de cada criador, é perfeito: todas as cenas são simplesmente perfeitas, belas, tudo emana discurso, deu até pra colocar easter eggs, porque não?
Mas só para dar uma idéia, dez anos depois de encerrada a saga Harry Potter, JK Rowling ainda debatia que “nunca disse que a Hermione era branca”… Isso, eu acho que é suficiente para dar uma idéia de como cada cabeça tem uma sentença a respeito do que vai ser criado.

Por isso é importante que o filme que vai ser criado tenha uma visão compartilhada ao máximo. Por exemplo, se você já tem um roteiro, um título, tente criar um cartaz para seu filme. Ainda que ele seja um curta-metragem, ainda que pareça tudo muito básico e simples, faça um cartaz. Ponha o título do filme. Ponha o nome do diretor. Ainda não tem o elenco? Ponha uma imagem genérica tirada do Google, ou nem mesmo ponha nada. Defina uma cor para as letras do cartaz e outra para o fundo. Só.

Não é que vá acontecer isso com cada material que você produz, imagina se amanhã você está produzindo comerciais numa agência de publicidade, que às vezes roda dois no mesmo dia? Não dá! Mas tente ter na cabeça um conceito, uma idéia permanente: “se eu fizesse para a equipe desse curta, uma camiseta, ou caneca, ou sandália personalizada, como seria?”

Por menos que você tenha idéia, um tipo de letra, um tamanho, e essas duas cores que te disse para escolher, já são um conceito para o filme. Muita coisa pode crescer daí. E isso demonstra um apego ao material que você está produzindo, que se transforma em qualidade no final.

Eu já fiz alguns poucos curta-metragens, e admito que já me deixa com outra mentalidade o simples fato da equipe ter uma cópia impressa do roteiro para mim, e grampear essa cópia. Esse simples grampo já cria uma distância entre aquele grupo que só se juntou para terminar o curso, e aqueles que, mesmo separados amanhã, amam o que estão fazendo.

Nós no mundo, mas acho que principalmente no Brasil, estamos passando por um momento bem crítico. Muito pouca coisa pode ser produzida, e não temos uma imagem simples do brasileiro nesse momento.

Os personagens que você cria para uma história, normalmente, se relacionam com a experiência de quem está assistindo. Ou seja, você pode querer filmar uma história que você se identifica, mas você não tem como saber de que maneira seus personagens vão se conectar com o expectador. Com a vivência dele ou dela. Se for uma boa história, com uma transformação de personagem, conte. Tudo acaba se encaixando bem, no final.

O mais importante é chegar ao final, lembre-se disso.

Atuação

Uma vez eu tive a oportunidade de cruzar com Sílvio Matos, descaradamente cumprimentei e perguntei o que estavam gravando (tinha muita gente e equipamento em volta, claro que estavam gravando alguma coisa) e ele tranquilamente respondeu que era um curta universitário. Já tinha visto ele em alguns videos do canal do youtube Parafernalha e comentei isso com ele. E ele me disse que fazia isso “para se manter trabalhando”.

É fato, atores adoram trabalhar. É muito bom participar da narração de uma história, mesmo as que a gente quer fazer menos.